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segunda-feira, janeiro 08, 2007

Que me venha esse homem...




Foto de Bettina Bergemann

Que me venha esse homem
depois de alguma chuva
que me prenda de tarde
em sua teia de veludo
que me fira com os olhos
e me penetre em tudo.

Que me venha esse homem
de músculos exatos
com um desejo agreste
com um cheiro de mato
que me prenda de noite
em sua rede de braços
que me perca em seus fios
de algas e sargaços.

Que me venha com força
com gosto de desbravar
que me faça de mata
pra percorrer devagar
que me faça de rio
pra se deixar naufragar.

Que me salve esse homem
com sua febre de fogo
que me prenda no espaço
de seu passo mais louco.



Bruna Lombardi (Actriz, modelo, poetisa brasileira, 1952 - )



sábado, dezembro 02, 2006

Amor...



Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.


José Luis Peixoto

quinta-feira, novembro 30, 2006

Em todas as ruas te encontro



Foto de Gabriele Rigon



Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco



Mário Cesariny (1923-2006)


quarta-feira, novembro 15, 2006

Todos os filhos da puta têm um nome



Todos os filhos da puta têm um nome.
Porque se chama puta à mãe se o sacana é o filho?
Por isso digo:
Todos os sacanas têm um nome!
E mães que podem ou não ser putas que pariram um sacana.
Não é socialmente aceitável, correcto
Falar com putas
Mas é-se amigo de sacanas.
Evitam-se as putas na rua
Recebem-se os sacanas em casa.
Se a cara do sacana reflectisse o que ele é,
Como o corpo da puta denuncia o que ela faz.
Não evitaríamos,
Atiraríamos pedras,
Construiríamos guetos para sacanas?
O problema é esse!
É que ser puta é uma máscara e ser sacana vem de dentro.
Eu prefiro estar rodeada de putas
A cruzar-me com um sacana.




Encandescente (19-09-2006)

quarta-feira, novembro 01, 2006

Poema do Desamor



Foto by Gadjetgirl



Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato



Alexande O'Neill (Poeta português, 1924-1986)

quinta-feira, outubro 26, 2006

Contradição


Não
me lembres o tempo
que me lembras de mim
e eu quero a amnésia
não sentir…não pensar…

eu louca em busca
da paz e do silencio
quando a tempestade
é que me contagia.



Ângela Santos

quarta-feira, outubro 18, 2006

Guerra Civil

É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso,
O que sinto,
O que digo
E o que faço,
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.

Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.

Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido,
Nem convencido.
E agrido em mim o homem e o menino.



Miguel Torga (Escritor e poeta português, 1907-1995)

segunda-feira, outubro 02, 2006

Quando olho para mim não me percebo


Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.


Lisboa, (uns seis a sete meses antes do Opiário) Agosto 1913



Álvaro de Campos


sábado, setembro 16, 2006

Hoje apetece-me... Elis Regina



Atrás da porta
(Chico Buarque / Francis Hime)

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pêlos
Teu pijama
Nos teus pés
Ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho

Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me entregar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostra que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua...





O Bêbado e a Equilibrista

(João Bosco /Aldir Blanc)

Caía
A tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos

A lua
Tal qual a dona dum bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!

Louco,
O bêbado com chapéu côco
Fazia irreverencias mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil

Que sonha
Com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete

Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil

Mas sei
Que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança dança
Na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar

Azar
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

sexta-feira, setembro 15, 2006

Palavras dos outros

Tenho recorrido às palavras dos outros, porque não tenho conseguido escrever. Ocupações e contradições do novo trabalho prendem-me e a confusão e incapacidade de organizar ideias instalaram-se.

Este fim-de-semena termino a revisão de um relatório do trabalho antigo e espero ficar mentalmente mais liberta.

Entretanto...
esta sou eu!


Pintura de Sebastião Xant

Retrato


Mostro-me em glória
Vestindo-me de luzes e encantos
E por dentro amordaço-me.
Sou assim brilho e luz.
Sombra e escuridão.


Encandescente

segunda-feira, setembro 11, 2006

Overcome




Overcome - Live

Even now
the world is bleedin'
but feelin' just fine
all numb in our castle
where we're always free to choose
never free enough to find
I wish somethin' would break
cuz we're runnin' out of time

and I am overcome (yeah)
I am overcome
holy water in my lungs
I am overcome

these women in the street pullin' out their hair
my master's in the yard
givin' light to the unaware
this plastic little place
is just a step amongst the stairs

and I am overcome (yeah)
I am overcome (baby)
holy water in my lungs (yeah)
I am overcome

so drive me out
out to that open field
turn the ignition off
and spin around
your help is here
but I'm parked in this open space
blockin' the gates of love

and I am overcome (yeah)
I am overcome (baby)
holy water in my lungs (yeah)
I am overcome (yeah, yeah)

I am overcome (oh Lord)
I am overcome (baby)
holy water in my lungs (holy water, holy water)
I am overcome

beautiful drowning
this beautiful drowning
this holy water
this holy water is in my lungs

and I am overcome
I am overcome (yeah, yeah)
I... I... I am overcome
I am overcome

sexta-feira, setembro 08, 2006

MENINA

JP, muito obrigada pelo poema e pelo teu carinho. Adorei. Compreendi. Registo-o aqui para que todos o possam ler.
Um beijo grande.

"Deixo-te esta canção, mas não tenho voz, nem sei música. Só posso imaginar uma voz rouca, um ritmo lento, uma melodia de piano. Tem uma vantagem… podes imaginar 1000 canções… "



Menina


Partiste mas não saíste…
Ficaste, no escuro do meu quarto...
No meu corpo te guardei
No coração te prendi
Com meus braços te apertei
E não te deixei sair

Menina, tenho que ir
Tens que me deixar partir
Só assim posso voltar
Se o amor despertar…

Olho o mundo à minha volta
Não te vejo, nem te encontro
Noutro porto te abrigaste
Noutros braços te abraçaste

Menina, tenho que ir
Tens que me deixar partir
Só assim posso voltar
Se o amor despertar…

Empurro-te para a saída…
Mas meu coração não me deixa
Abrir a mão que te prende…
No coração te guardei
Com meus braços te apertei
E não te deixei sair

Menina, tenho que ir
Tens que me deixar partir
Só assim posso voltar
Se o amor despertar…

Só assim posso voltar
Se o amor despertar…

Se o amor acordar…

quarta-feira, setembro 06, 2006

Elogio do Pecado



Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.


Bruna Lombardi (Actriz, modelo, poetisa brasileira, 1952 - )


Foto de Pascal Renaux

segunda-feira, agosto 28, 2006

Rasgo por fim o longo silêncio

Hoje visitei o blog do Cláudio e revi-me nestas suas palavras


Rasgo por fim o longo silêncio



Neste degredo solitário
feito de tácitas cumplicidades
a que os anos me acomodaram,
rasgo por fim o longo silêncio
chamando a mim a força de braços
que imponha a distância de tudo aquilo
que aniquila e envenena a alma
e a distrai do eflúvio essencial da vida.



Cláudio

domingo, agosto 20, 2006

Lágrimas ocultas



Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
 
Florbela Espanca (Poetisa Portuguesa, 1894-1930)


Foto: You will be missed, by BidWiya

terça-feira, agosto 15, 2006

Goodbye my lover!

Estou de regresso! E volto carregada de energias para uma vida nova. Amanhã vou começar um trabalho novo e tomei a decisão de me afastar do Meu Amor. A sua presença ausente faz-me mal. A sua indiferença faz-me mal. A sua suposta felicidade faz-me mal. E eu quero voltar a sentir-me bem! "Goodbye my lover!"



Foto do filme Casablanca




Did I disappoint you or let you down?
Should I be feeling guilty or let the judges frown?
'Cause I saw the end before we'd begun,
Yes I saw you were blinded and I knew I had won.
So I took what's mine by eternal right.
Took your soul out into the night.
It may be over but it won't stop there,
I am here for you if you'd only care.
You touched my heart you touched my soul.
You changed my life and all my goals.
And love is blind and that I knew when,
My heart was blinded by you.
I've kissed your lips and held your head.
Shared your dreams and shared your bed.
I know you well, I know your smell.
I've been addicted to you.

Goodbye my lover.
Goodbye my friend.
You have been the one.
You have been the one for me.

I am a dreamer but when I wake,
You can't break my spirit - it's my dreams you take.
And as you move on, remember me,
Remember us and all we used to be
I've seen you cry, I've seen you smile.
I've watched you sleeping for a while.
I'd be the father of your child.
I'd spend a lifetime with you.
I know your fears and you know mine.
We've had our doubts but now we're fine,
And I love you, I swear that's true.
I cannot live without you.

Goodbye my lover.
Goodbye my friend.
You have been the one.
You have been the one for me.

And I still hold your hand in mine.
In mine when I'm asleep.
And I will bear my soul in time,
When I'm kneeling at your feet.
Goodbye my lover.
Goodbye my friend.
You have been the one.
You have been the one for me.
I'm so hollow, baby, I'm so hollow.
I'm so, I'm so, I'm so hollow.

James Blunt



sexta-feira, julho 28, 2006

Quase tudo

Só hoje, quando vinha para o trabalho, reparei nesta letra...
Há anos que ouço esta canção.


Foste entrando sem pedires
E marcaste o teus sinais
Tatuaste a minha vida
Ferro e fogo e muito mais
Vasculhaste os meus segredos
e eu deixei
sem reverdes nem pudor

Invadiste os meus sentidos
o qu'eu não fiz por amor
e deixaste a minha vida
mãe perdida
Neste beco sem saída

Dei-te quase tudo
e quase tudo foi demais
dei-te quase tudo
Leva agora os meus sinais

Obrigaste-me a quebrar todas as leis
e deixaste-me ao sabor da loucura
dei-te os dedos e os anéis
E o que tinha de melhor


Paulo Gonzo

sábado, julho 22, 2006

Reflexividade

























Reflexivo


O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.


Affonso Romano Sant'Anna
(Poeta Brasileiro, 1937 - )

Imagem: "Reflection", autor desconhecido. Retirada daqui.

terça-feira, julho 18, 2006

Na ressaca da Feira Erótica...

...o erotismo de outras épocas!















Delírio


Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...



Olavo Bilac

(Poeta Brasileiro, 1865-1918)

Foto daqui

segunda-feira, julho 17, 2006

Não te quero senão porque te quero

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.


Pablo Neruda